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Thu, Nov. 6th, 2008, 06:35 pm
Mudança

Este blog mudou de endereço. Agora o endereço é http://calebe.org. (Sim, calebe.com e calebe.net já haviam sido comprados. Ademais, eu sempre posso fingir para mim mesmo que "org" é de "orgânico", e não de "organização".)

Nestes meses, aprendi a desgostar do sistema do LiveJournal; o WordPress é melhor em rapidez, praticidade e customização, plugins, etc. Adicionalmente, o meu irmão me disponibilizou um servidor com espaço ilimitado. (Obrigado!)

Já exportei os posts mas, infelizmente, não vou poder levar junto os comentários antigos. Estarão guardados aqui, até o fim da civilização humana, e nas minhas boas lembranças. Obrigado.

Ainda estou ajustando alguns pequenos detalhes do novo blog, então não estranhem incongruências.

Wed, Nov. 5th, 2008, 08:10 pm
Questão de pele

Várias partes do corpo humano não têm nome. Por "nome", refiro-me a um nome popular ou ao menos a um termo que não seja puramente técnico como "esternoclidomastóideo" (o músculo que se conecta ao esterno, à clavícula e ao mastóide; mastóide é um osso atrás da orelha). Talvez fosse questão de reunir alguns lingüistas para que pudéssemos transportar pequenas expressões locais e populares de uma língua a outra, universalizando o corpo humano ao comum humano.

Alguns termos são simples e, no entanto, não são amplamente conhecidos: a glabela, por exemplo, é a região na base da testa que fica entre as sobrancelhas -- e vem do latim "glabella", feminino de "glaber", "sem pêlo". Quantas pessoas, ao deixarem um beijo na testa de alguém, já não inadvertidamente beijaram a sua glabela?

Assim prosseguimos. Como se chama a pequena, às vezes imperceptível concavidade entre a ponta do násio e o início das cartilagens nasais, onde em muitas pessoas é o último ponto de fôlego antes do declive que termina em uma sutil e charmosa arrebitação do nariz? Caso alguém saiba, será gentileza me esclarecer.

Já ouvi alguns chamarem a parte saliente demarcada pela clavícula de "saboneteira", e é um nome engraçado, senão simpático. Mas como se chama a região próxima à saboneteira onde se encontram com tranqüilidade e insinuação as linhas do ombro e do pescoço sem que consigamos definir exatamente a qual dos dois ela pertence, pouco à frente do músculo trapézio? Como pode esta parte não guardar nome, se ali cabem tantos beijos e carinhos?

Ou, ainda, quando as mulheres prendem os seus cabelos num rabo-de-cavalo alto: aquela macia região próxima à nuca, mas sem ainda o ser, onde geralmente sobram os fios de cabelo curtos demais para serem presos e que capturam como seda-de-aranha a fantasia dos homens, como ela se chama? Ela precisa de um nome, para que então possam escrever poemas de amor e alucinação.

Ao descer pelo braço, mas antes de chegar ao antebraço, temos a pequena dobra que separa um do outro, lado oposto ao cotovelo. Ao contrário das outras partes, esta pequena cavidade tem nome, mas inútil fora de uma aula de anatomia: fossa cubital. Este trecho, que sabe aninhar a frágil cabeça de bebês a sonhar e nos ajuda a desenhar abraços tão sinceros em volta dos amigos, não pode chamar-se "fossa cubital". Não.

As mãos; como se chama o pedaço rechonchudo logo abaixo do polegar, que sempre quase pode ser beliscada, não importa quanto de pele e osso seja a pessoa? A parte sutilmente mais sensível ao toque e às cócegas, na região abstrata entre polegar e indicador, nas costas da mão? A linha que firma a silhueta do maxilar sem alcançar o queixo? A área da planta do pé que, independente de quanto andemos descalços, não se suja? Sente-se: a parte interna da coxa que inicia pouco acima do joelho, localizada nem na parte superior, nem na parte lateral, mas entre um e outro, e que se estende até o atrevimento?

Eu poderia seguir indefinidamente, mencionando partes, inclusive, que tornariam este blog inapropriado para leitura pública -- embora ambas podências fujam de meu escopo. Muitas vezes, para que possamos reconhecer ou entender a importância de um sentimento, tanto o dado quanto o recebido, precisamos saber também o seu nome. Mas reconheço, antes de mais nada, que muitos nomes devem parar e permanecer na ponta dos lábios, a roçar de leve a alma, desfrutando daqueles instantes que não têm substantivo.

Mon, Nov. 3rd, 2008, 11:29 am
Sob um céu pesado

Numa certa manhã nublada de sábado, não há muito tempo, fui até um parque próximo de casa.

Eu gosto de parques. Algumas pessoas sentem necessidade de água; eu sinto de grama. Ter grandes porções de verde afagando os meus olhos, cada lâmina a refletir luz e orvalho sob um ângulo diferente, detendo aos poucos a humidade que se esvai ao longo do dia: tudo isso conforta o meu espírito ruminante. Além do mais, meu instinto diz que, salvo caso de incêndio, estar rodeado de árvores é estar protegido -- e eu sempre tento buscar o ponto mais protegido.

Então fui até este parque e me sentei em um de seus bancos de madeira, acendendo um cigarro. Usualmente eu me sentiria desestimulado a acender um cigarro, mas havia um largo cinzeiro ao lado do banco. (Mentira. Eu teria acendido o cigarro do mesmo jeito.) Era o que as pessoas -- exclusive eu -- costumam chamar de "dia feio", mas ainda assim não era difícil ver algumas delas correndo ou cachorros levando seus humanos para passear.
 
Vi uma menina, acompanhada de uns pais. Não tinha mais do que sete anos, e se movia com aquela pureza e liberdade que só as meninas crescidas conseguem desaprender, depois de crescidas. Dizer que era de felicidade diminuiria o seu sorriso; era de um maravilhamento que tecia e erguia a realidade ao seu redor. (Porque, afinal, é para as mulheres sorrirem que existe o mundo.) Ao acionar um poste de esguicho de vapor d'água, soltou um tão pequeno quanto legítimo grito de surpresa e de acontentamento, e então o instante eu saboreei duplamente: uma vez pelo trecho em si, e outra vez por poder guardar uma memória que ela própria não mais terá, anos após.
 
Muitos momentos depois, vi uma moça, acompanhada de um cachorro -- ou um cachorrinho, pois era filhote. Tanto ele quanto ela estavam sem coleira, e os dois também brincavam alheios a ruído e rumor como só as crianças brincam. Olhei em volta e constatei egoísta que só eu, dentre todas as pessoas do mundo, presenciava aquela cena: o cachorrinho corria junto à moça, com ela brincava de cabo-de-guerra com um graveto, equilibrava-se sobre um tronco deitado e latia a ela. Por fim a moça cansou-se e sentou-se em um banco; o cachorrinho fez o mesmo. Quantos momentos de alegria genuína vislumbramos em cada um dos nossos dias? Nos meus, são muito poucos; portanto, angariar esses pequenos universos é-me muito precioso.
 
Começava a espraiar-se uma fina garoa. Joguei o último cigarro no cinzeiro, levantei-me e fui embora, mais leve sob um céu pesado.

Sat, Nov. 1st, 2008, 08:25 pm
Breviário

"Angst" é uma palavra alemã que Kierkegaard originalmente atribui ao receio que o indivíduo sente diante da possibilidade de não cumprir as responsabilidades a ele delegadas por Deus. Depois a palavra se desenvolveu para se aproximar do conflito que o indivíduo sente entre os anseios do mundo, de seus próximos e de si mesmo.

Já que não sinto sob a pele do egoísta as exigências de terceiros, eu pessoalmente prefiro entendê-la, em diâmetro oposto, como a angústia sentida pelo indivíduo diante da plena consciência de sua total liberdade ante o mundo. Neste sentido, ela se torna, creio eu, uma das chaves forjadas pelo niilismo -- a corrente filosófica que diz não haver valor, moral ou significado intrínseco na vida. Eu concordo com o niilismo, no sentido de que somos nós quem constrói aquilo que nos motiva a continuar a viver. O significado da vida é algo inexpugnavelmente pessoal e intransferível e, portanto, não há resposta genérica ou absoluta.

"Malaise" é uma palavra francesa que designa a sensação de fadiga e desconforto que precede algumas doenças. Liricamente, a palavra se refere à sensação, muitas vezes sentida na adolescência, de que não cabemos na sociedade em que nos encontramos; de que somos diferentes e não conseguimos encontrar os nossos iguais.

Não me sinto deslocado. Estou ciente de onde me encaixo, vez que compreendo como a sociedade funciona e como as pessoas funcionam. Simpatizo-me com elas e, acima de tudo, respeito os seus sonhos e desejos. Apesar de nós, como humanidade, ainda termos tanto a aprender, há muita beleza no mundo -- coisas e pessoas dignas de serem vividas e pelas quais se vale a pena viver, se devidamente vislumbradas e abordadas. Tampouco me sinto isolado, à medida em que estou ciente de que há tantos outros como eu, genérica e não-genericamente.

"Spleen" é uma palavra inglesa que designa tanto o baço, nosso órgão, quanto a melancolia, nosso sentimento. Segundo uma teoria medieval, a saúde e o humor de uma pessoa variavam de acordo com os níveis de quatro fluidos produzidos em seu corpo: sangue, bile amarela, bile negra e fleuma. (Responsáveis, respectivamente, pelo humor sangüíneo, colérico, melancólico e fleumático.) O baço é quem supostamente produzia a bile negra.

Já mencionei não ter remorsos ou arrependimentos; nenhuma memória do passado consegue me assombrar. Por outro lado, as duas restantes -- a do presente e a do futuro -- podem me incomodar, e por vezes o fazem. A do presente tem inúmeras faces e me apresenta ainda mais inúmeros caminhos dentre os possíveis; não conseguindo distinguir qual é o verdadeiro, sinto-me não sangüíneo, colérico ou fleumático, mas melancólico. Embaçado, introspectivo e cansado, como um fantasma que não consegue existir e que, portanto, cala-se. A do futuro esconde a sua face. Sempre tento me lembrar de como ele é, mas nunca consigo.

"Tedium vitae" é uma expressão latina que define um cansaço insuperável da vida. É algo maior do que mero tédio; é a incapacidade que o indivíduo tem de permitir que a beleza da vida adentre o seu espírito. Hodierna e neurologicamente, é quando há produção insuficiente ou recaptação excessiva de determinados neurotransmissores, e.g. serotonina, o que dificulta ou impede a pessoa de sentir prazer.

Fri, Oct. 31st, 2008, 10:58 am
Quase nada = nada

Outro dia desses, eu estava folheando algumas páginas de matemática quando descobri que 0,999... (ou seja, um zero seguido por uma vírgula e infinitos 9s) é exatamente igual a 1. Não é uma aproximação; eles são o mesmo número. Este é um conceito extremamente básico de matemática com o qual, no entanto, eu nunca havia tido contato e tampouco me havia ocorrido.

Logicamente, o seguinte ocorre. A diferença entre 1 e 0,9 é de 0,1. A diferença entre 1 e 0,99 é de 0,01. A diferença entre 1 e 0,999 é de 0,001. Portanto, a diferença entre 1 e 0,999... é de 0, seguido de uma vírgula, seguido de infinitos 0s, seguido de 1. Mas como o número de 0s à direita da vírgula é infinito, nós nunca conseguiremos colocar o 1 final -- ou seja, a diferença é de 0, seguido de uma vírgula, seguido de infinitos 0s. Isso faz com que a diferença entre 1 e 0,999... seja equivalente a 0, o que torna os dois números idênticos.

Algebricamente, há modos diferentes de provar que 0,999... é igual a 1. Estas equações me lembraram muitas outras nas quais esbarramos na escola e que tentam provar, através de pequenos e discretos erros, afirmações como 1 = 2. (Ao contrário das equações errôneas, estas não contêm induções ao engano. Como elas, não exigem qualquer conhecimento matemático além do básico.)

Prova I.

  1
= 9/9
= 9 × 1/9
= 9 × 0,111...
= 0,999...


Prova II.

Primeiro definimos um valor para x:

      x = 0,999...

Multiplicamos ambos lados da equação por 10:

    10x = 9,999...

Subtraímos x de ambos lados da equação:

10x − x = 9,999... − 0,999...

Isso nos permite chegar a:

     9x = 9,000...

Concluindo, assim, que:

      x = 1


Prova III.

Se

        1/11 = 0,090909...

e

       10/11 = 0,909090...

então

1/11 + 10/11 = 0,999999...

Mas

1/11 + 10/11 = 11/11
             = 1



Há outras provas mais sofisticadas que fazem uso de limites, séries infinitas, encaixe de intervalos, cortes de Dedekind ou sucessões de Cauchy; todas chegam à mesma conclusão. O mesmo vale para qualquer dízima periódica cujo período seja 9. Ou seja, 2,2999... é igual a 2,3; 5,677999... é igual a 5,678; e assim por diante.

Por que isso acontece? Porque, no conjunto dos números reais, cada número pode ser representado de diversas maneiras diferentes. E depois dizem que nunca mais na vida usamos a matemática que aprendemos na escola, hm?

Thu, Oct. 30th, 2008, 09:32 pm
Nicks

Por quase uma década, fui freqüentador regular de uma sala de bate-papo -- na época em que ainda chamávamos salas de bate-papo de "chat rooms". Nela e através dela conheci um número de pessoas, algumas com as quais mantenho contato até hoje.

Ao longo dos primeiros quatro ou cinco anos, usei o apelido (ou nickname, geralmente abreviado para "nick") de "Wickedworm"¹, motivo pelo qual muitos me chamavam de "wick", "worm", "verme" ou "verminho", inclusive pessoalmente. De início, construí e escolhi este apelido devido às iniciais de meu nome coreano, mas a verdade é que imagens desconvidativas sempre tiveram minha atenção. A partir deste apelido, criava inúmeras variantes, dependendo de meu estado de espírito, sempre seguindo a estrutura "w-worm": "Weepingworm", "Wretchedworm" e "Whimsicalworm" são os três primeiros que me vêm à mente.

¹ Em inglês, "worm" significa "verme". Já "wicked" tem várias traduções possíveis, dependendo do contexto: "mau", "maligno", "perverso", "maldito".

Nos cinco ou seis anos seguintes, passei a utilizar meu próprio nome como apelido: Calebe. O primeiro incentivo veio de uma ex-namorada, também freqüentatriz, que torcia o nariz para "Wickedworm". De qualquer forma, eu me sentia cada vez mais cansado do jogo de fumaça e espelho que a internet erguia, e percebia que não tinha mais segredos a esconder ou papéis a interpretar.

Ainda assim, neste período, utilizei-me de outros apelidos para novamente traduzir estados de espírito. Quando me sentia suficientemente inundado por algum sentimento em particular, fazia uso de "-heart", como em "Blackheart", "Swanheart" ou "Whoreheart". (Curiosamente, todos homens automaticamente me tomavam por mulher quando eu usava "Whoreheart"; mas nunca qualquer mulher o fez. Isto serve para ilustrar o quanto os homens conhecem das mulheres.)

Transgredindo o baile de máscaras que os adultos desconfiados organizavam -- e alguns o faziam com razão --, sempre fiz questão de me identificar a quem perguntasse quem eu era, mesmo quando eu vestia um apelido não-padronizado como "Barrabás", "Iscariotes" ou "Édipo". Estes eram os outros três apelidos que eu usava.

Os dois primeiros são referência direta da Bíblia. Barrabás foi o arruaceiro que ganhou a liberdade e o direito à vida no lugar de Jesus Cristo, no julgamento mediado por Pilatos. Considero tremendamente atraente e engraçada a maneira como ele representa as escolhas erradas que o povo pode fazer; uma recordação de que tantas vezes os bons são punidos no lugar dos maus. Iscariotes é o sobrenome de Judas, o traidor de Jesus, e não requer maiores explicações: quem não gosta de um pária?

A estória de Édipo também é conhecida pela maioria: o rei de Tebas que, sem o saber, mata o pai e se casa com a mãe para, no fim, furar os próprios olhos. Também é ele que leva a Esfinge ao suicídio, ao resolver seu enigma, e este detalhe me interessa, mas eu usava o apelido porque Édipo representa a luta implacável contra o Destino.

Édipo Rei, de Sófocles, é uma das leituras obrigatórias para quem gosta de literatura. Além de ser uma das grandes homenagens à tragédia, ele me lembra de como mesmo os homens de boa vontade ignoram conselhos corretos, quando assim escolhem fazer. (Recuriosamente, era excessivo o número de mulheres que me abordavam reservadadamente quando eu estava como "Édipo". Até hoje não sei se elas se sentiam estimuladas pelo drama e destino que a estória tece, ou se gostavam da idéia de um homem que as visse como mães.)

Às vezes, inspirado pela commedia dell'arte, eu também usava "Arlecchino": o palhaço encrenqueiro e desajeitado que está perdidamente apaixonado pela Colombina -- a palhacinha bela, esperta e voluntariosa -- e que por ela é eternamente desprezado.

Wed, Oct. 29th, 2008, 04:06 pm
Do início ao reinício

Introduções e recapitulações ultracondensadas. [Lembretes adicionais entre colchetes.]

Carga elétrica é a característica inerente de algumas partículas subatômicas que faz com que elas se repilam ou se atraiam. Estas partículas, ao interagirem o suficiente entre si e mudarem sua carga elétrica, criam novas e especiais partículas chamadas "fótons" -- cuja manifestação na tessitura da realidade dá-se através de campos eletromagnéticos, que se espalham na forma de ondas.

Esta radiação eletromagnética, dependendo de seu comprimento de onda, recebe nomes diferentes: raios gama, raios X, luz ultravioleta, luz visível, luz infravermelha, microondas, ondas de rádio. (Só confirmando: sim, a luz que vemos é radiação eletromagnética.)

Energia não é criada nem destruída.

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Hidrogênio [número atômico: 1], o verdadeiro elemento-máter do universo e da vida, surgiu da nucleossíntese causada pelo Big Bang. [Se vocês estão pensando na possibilidade de eu explicar o Big Bang: não.]
 
Não se sabe exatamente como o nosso sol nasceu, mas supomos que ele se tenha formado a partir de uma grande nuvem molecular de hidrogênio que, devido à baixa temperatura e alta densidade de seu centro, entrou em ponto de colapso -- não tão diferente de como planetas (ou cidades russas) se formam. [Composição aproximada do sol: 75% hidrogênio e 24% hélio, ambos totalizando 99%.]

No centro ultradenso do sol, a gravidade e a temperatura são tamanhas a ponto de fundir alguns átomos de hidrogênio em átomos de hélio. [Há muita e muitíssima energia mantendo unidos os prótons e nêutrons dos núcleos atômicos. Vide Hiroshima e Nagasaki.] Cada novo átomo de hélio produz fótons que são prontamente absorvidos pelas partículas adjacentes e reemitidos numa direção aleatória -- isto, somado ao tamanho da estrela do nosso sistema solar, faz com que um único fóton recém-nascido leve algo como um milhão de anos para partir do centro e alcançar a superfície do sol.

Conforme o fóton se aproxima da superfície, depois de perder muita de sua energia ionizando o plasma solar [plasma é o quarto estado da matéria; uma espécie de supergás], ele faz com que elétrons livres interajam com o hidrogênio da camada mais externa, finalmente produzindo radiação eletromagnética no comprimento de onda da luz visível -- quando então o fóton escapa em direção a um planeta azul chamado "Terra". [Tempo total da viagem: um milhão de anos, oito minutos e vinte segundos.] Digamos que o fóton tem um comprimento de onda de aproximadamente 610 nanômetros, o que nos permite caracterizá-lo como cor-de-rosa.

Ao alcançar a atmosfera terrestre, outras partículas começam a interceptar os fótons; ao interagir com eles, o ar dispersa, i.e., refrata parte da radiação responsável pela cor azul (e por isto o céu é azul) e deixa passar a radiação responsável pelas outras cores, principalmente o amarelo (e por isto o sol é amarelo). [Composição aproximada do ar: 78% nitrogênio e 21% oxigênio, ambos totalizando 99%.] Felizmente, é este mesmo ar [oxigênio: O2; ozônio: O3] que dispersa a maior porção da cor hiper-azul da radiação, também conhecido como ultravioleta. [Ainda assim, não se esqueçam de passar protetor solar.] Como nosso fóton é cor-de-rosa, ele se esquiva facilmente das partículas de nitrogênio e oxigênio.

Então, depois desta longa jornada, ele consegue pousar numa flor.

[Flor > pétalas > tecidos parenquimáticos > células eucariontes > organelas > água e polímeros biomoleculares > átomos de carbono, hidrogênio, nitrogênio e oxigênio.]

O fóton cor-de-rosa não tem tempo para descansar: ele é prontamente rebatido por um átomo de pétala e, assim, vaga pelo ar até alcançar o olho da pessoa que está a observar a flor. Ele atravessa a córnea, o humor aquoso, a pupila e o humor vítreo até tocar a retina, que se localiza na parede interna do fundo dos olhos -- mais especificamente a fóvea, a região com maior concentração de células fotossensíveis e responsável pela alta resolução de qualquer objeto, pessoa ou cena a que estejamos prestando atenção.

A célula fotorreceptora tem uma ponta, em forma de bastão ou cone, repleta de uma proteína chamada "opsina". Quando o fóton é absorvido por uma opsina, tem início uma série de reações bioquímicas...

[Aos curiosos, a opsina ativa muitas proteínas transducinas que, por sua vez, acionam ainda mais enzimas fosfodiesterases, que, por sua vez, catalisam a hidrólise de ainda muito mais nucleotídeos -- in casu, guanosina monofosfato cíclico (GMFc) é quebrada em guanosina monofosfato (GMF). Como é a GMFc e não a GMF que mantém abertos os canais de íons, eles são fechados, causando uma hiperpolarização que desestimula a liberação do neurotransmissor glutamato dentro da célula e uma depolarização que faz o contrário fora dela, alterando o potencial elétrico de sua membrana. Pronto. A mensagem é recebida pelas células bipolares que conectam as fotorreceptoras aos gânglios retinais.]

... uma série de reações bioquímicas que, alimentadas pelas mitocôndrias das células fotorreceptoras, acabam por atingir as células neuronais -- os gânglios. O cor-de-rosa do fóton percorre eletroquimicamente o sistema nervoso (propiciada pela diferença de voltagem entre o seu interior e exterior) até chegar no córtex visual, onde a informação será processada, guardada, restaurada e entrelaçada a tantas outras pétalas, flores, perfumes e versos que passaram pelos nossos sentidos.

A partir deste ponto, não há teoria única para o que acontece. Como e onde nossa memória é armazenada? De que maneira nós criamos pensamento ou mantemos consciência? De onde surgem nossos sonhos e criatividade? Não sabemos, mas uma coisa é certa: por mais que tenham sido perdidos energia e momentum, a fagulha do coração da estrela é a mesma que mantém viva a fagulha do coração humano.

Eis aí, então, uma das muitas trilhas percorridas da criação do universo através e até a nossa imaginação.

Tue, Oct. 28th, 2008, 10:35 am
The book is on the table

O que há sobre a minha mesa de trabalho?

Há um computador. Depois de queimar dois PCs sucateados, o help desk finalmente me concedeu um computador com configuração minimamente decente -- ainda que o monitor permaneça a ser um CRT. Os fones ("fones de cabeça"?; headphones, não earphones) são de qualidade profissional, já que são meus principais instrumentos de trabalho, mas os MP3s também agradecem.

Há um carrossel. Eu chamo aqueles pequenos porta-trecos giratórios típicos de escritório, com lápis, caneta, régua, estilete, clipes, etc., de "carrossel". (Os afiados extratores de grampos se chamam "vampiros", para mim.)

Há um vidro de pimenta comari curtida em azeite. Eu tinha o costume de levar pimenta ao refeitório, mas a pressão deste recipiente se tornou tanta que a tampa só abrirá com muita dificuldade. Depois que um colega de trabalho retalhou a própria mão ao tentar abrir e conseqüentemente explodir um pote de pimenta, estou esperando eu me subscrever a um plano de seguro de saúde antes de este vidro deixar de ser enfeite. Há também uma pimenta malagueta de pelúcia.

Há uma esfera de gravetos. Na realidade, é um único e longo graveto retorcido sobre si mesmo, de modo a formar uma esfera oca. Pode parecer tolo, mas isto representa o meu vínculo com a natureza e o respeito que ela evoca em mim.

Há uma barata de plástico. Encontrei esta barata no nosso estoque de material, abandonada junto a alguns grampeadores e perfuradores tetânicos. Desde então, ela passeia pela minha mesa. O único cuidado que devo ter é o de não permitir que a minha chefe a veja; ela tem asco por baratas.

Há um pote com folhas desidratadas para chá. Há, junto, um pequeno sachê reutilizável de metal, para preparar chás. Um copo de vidro, uma caneca de argila onde imprimi "tachigraphia", e muitos copos de plástico -- que as meninas da limpeza insistem em jogar fora na manhã seguinte, apesar de eu tentar reaproveitá-los. Uma caixa cúbica de papel com quatro canudos de lanchonete. A caixa cúbica era o meu "banco de frutas", até eu me dar conta de que nela eu não conseguia perceber quando as frutas estragavam.

Há um porta-retratos. Nele, há um bordado que Ela fez para mim, além de três pedaços de papel. No primeiro há um smiley desenhado a esferográfica azul, por mim; no segundo está impresso "Não é de verdade.", também por mim; no terceiro está escrito "É só um dia!", por minha amiga e colega de trabalho, C.

Há, num pequeno suporte vertical acoplado à mesa, um pedaço de barbante amarrado num grampo usado, grudado com fita durex. Obra de C. No mesmo suporte, está fixada uma folha sulfite com o regime de horários do nosso setor e outra com a lista de ramais para os quais ligo com mais regularidade ou necessidade.

Há, de vez em quando, um telefone. C. às vezes joga o nosso ramal para cima da minha mesa. (Isso quando não chuta a minha cadeira ou fica abrindo as minhas gavetas.)

Há dois pequenos dados. São de resina plástica, como os de qualquer jogo de tabuleiro. Inicialmente, eu havia pensado em usá-los para tomar decisões; mas nunca precisei deles.

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Seguem então os itens temporários -- que estão na mesa pelo menos até eu fazer uso ou encontrar outro lugar para guardá-los.

Há uma maleta de gamão. Sobre a maleta, há uma caixa com peças de xadrez em madeira. Sobre a caixa, há um relógio de xadrez. (Não; não tenho jogado ultimamente. O tabuleiro de xadrez é em crochê e no momento estão usando para adornar o forno de microondas.) Cinco maçãs. CDs e DVDs cujos conteúdos já não consigo lembrar. Uma pequena pilha de papéis A4, utilizadas para rascunho e anotações diversas. Uma garrafa de Coca-cola cheia d'água. Um barbante de meio metro. Um calendário. Duas caixas de leite de arroz e um tupperware de gérmen de trigo. Um livro chamado "Teoria Pura do Direito", de Hans Kelsen.

Pensando melhor, talvez minha chefe tenha razão em reclamar da minha mesa.

Mon, Oct. 27th, 2008, 09:19 pm
Viral

O advento do YouTube popularizou no Brasil o termo "viral", adjetivo aplicado a tudo aquilo que, sendo exposto a alguém, impele a pessoa a emular ou iterar a mesma coisa a terceiros. "Viral" vem da expressão "meme viral", e meme é um conceito da protociência (ou pseudociência, diriam alguns) da memética.

Richard Dawkins, mais conhecido hoje pela sua feroz posição antiteísta, escreveu na década de 70 um livro chamado "O Gene Egoísta", no qual ele ilustra uma analogia entre os genes e algo que ele chama de "memes". O primeiro tenta cruzar a sua carga de informação com o maior número possível de outras cargas de modo a criar o máximo de variabilidade e o segundo tenta fazer sua carga de informação sobrepujar e exterminar as outras cargas -- mas ambos o fazem apenas em nome de seus próprios e biológicos interesses de auto-perpetração.

Da mesma forma que os genes são as unidades de nossas características físicas, os memes são as unidades de nossas características psíquicas: toda idéia, conceito ou comportamento está armazenado em um meme. Como qualquer outro ser vivo, toda idéia nasce, cresce, reproduz-se e morre. (Dawkins prossegue dizendo que nós somos meramente veículos para genes e memes.)

Peguemos uma religião fictícia. Quando o seguidor desta religião não tolera qualquer visão telúrica ou teológica diferente da sua, é porque o meme encontrou em seu hospedeiro um ambiente perfeitamente propício para se instalar e passar a reinar, aproveitando-se dos memes já presentes e desestimulando a entrada de novos memes. Quando o sectário se sente impelido a discorrer a respeito e tentar convencer os outros de que a sua religião é a correta, o meme está tentando se reproduzir. Adicionalmente, os memes de religião estão entre os mais eficazes porque estabelecem sistemas de punição e compensação aos seus hospedeiros -- mas um dos grandes trunfos destes memes está em embasar-se naquilo que é misterioso e desconhecido, em vez de naquilo que é evidenciado e conhecido.

Quando uma pessoa entra em contato com uma idéia, conceito ou comportamento, o meme recém-chegado interage com os memes residentes. Ao encontrar as condições necessárias à sua sobrevivência, inclusive memes amigáveis, lá permanece, muitas vezes se reproduzindo, até ser morto por outros memes. Nem todos memes são mortíferos (vide memes de criatividade), e outros tornam-se mais fracos ou fortes conforme contexto (vide peer pressure).

Assim, o adjetivo "viral" na realidade refere-se aos memes com alto potencial de contaminação, independente dos contramemes que estejam instalados no hospedeiro em potencial. Geralmente têm curta expectativa de vida, mas se reproduzem em quantidade e velocidade consideráveis.

Pronto. Agora vocês já estão infectados pelo metameme -- o meme da própria memética.

Thu, Oct. 23rd, 2008, 11:59 am
Música: O Gato

Três minutos de piano: O Gato. As pausas são intencionais.

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