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Thu, Nov. 6th, 2008, 06:35 pm
Mudança

Este blog mudou de endereço. Agora o endereço é http://calebe.org. (Sim, calebe.com e calebe.net já haviam sido comprados. Ademais, eu sempre posso fingir para mim mesmo que "org" é de "orgânico", e não de "organização".)

Nestes meses, aprendi a desgostar do sistema do LiveJournal; o WordPress é melhor em rapidez, praticidade e customização, plugins, etc. Adicionalmente, o meu irmão me disponibilizou um servidor com espaço ilimitado. (Obrigado!)

Já exportei os posts mas, infelizmente, não vou poder levar junto os comentários antigos. Estarão guardados aqui, até o fim da civilização humana, e nas minhas boas lembranças. Obrigado.

Ainda estou ajustando alguns pequenos detalhes do novo blog, então não estranhem incongruências.

Wed, Nov. 5th, 2008, 08:10 pm
Questão de pele

Várias partes do corpo humano não têm nome. Por "nome", refiro-me a um nome popular ou ao menos a um termo que não seja puramente técnico como "esternoclidomastóideo" (o músculo que se conecta ao esterno, à clavícula e ao mastóide; mastóide é um osso atrás da orelha). Talvez fosse questão de reunir alguns lingüistas para que pudéssemos transportar pequenas expressões locais e populares de uma língua a outra, universalizando o corpo humano ao comum humano.

Alguns termos são simples e, no entanto, não são amplamente conhecidos: a glabela, por exemplo, é a região na base da testa que fica entre as sobrancelhas -- e vem do latim "glabella", feminino de "glaber", "sem pêlo". Quantas pessoas, ao deixarem um beijo na testa de alguém, já não inadvertidamente beijaram a sua glabela?

Assim prosseguimos. Como se chama a pequena, às vezes imperceptível concavidade entre a ponta do násio e o início das cartilagens nasais, onde em muitas pessoas é o último ponto de fôlego antes do declive que termina em uma sutil e charmosa arrebitação do nariz? Caso alguém saiba, será gentileza me esclarecer.

Já ouvi alguns chamarem a parte saliente demarcada pela clavícula de "saboneteira", e é um nome engraçado, senão simpático. Mas como se chama a região próxima à saboneteira onde se encontram com tranqüilidade e insinuação as linhas do ombro e do pescoço sem que consigamos definir exatamente a qual dos dois ela pertence, pouco à frente do músculo trapézio? Como pode esta parte não guardar nome, se ali cabem tantos beijos e carinhos?

Ou, ainda, quando as mulheres prendem os seus cabelos num rabo-de-cavalo alto: aquela macia região próxima à nuca, mas sem ainda o ser, onde geralmente sobram os fios de cabelo curtos demais para serem presos e que capturam como seda-de-aranha a fantasia dos homens, como ela se chama? Ela precisa de um nome, para que então possam escrever poemas de amor e alucinação.

Ao descer pelo braço, mas antes de chegar ao antebraço, temos a pequena dobra que separa um do outro, lado oposto ao cotovelo. Ao contrário das outras partes, esta pequena cavidade tem nome, mas inútil fora de uma aula de anatomia: fossa cubital. Este trecho, que sabe aninhar a frágil cabeça de bebês a sonhar e nos ajuda a desenhar abraços tão sinceros em volta dos amigos, não pode chamar-se "fossa cubital". Não.

As mãos; como se chama o pedaço rechonchudo logo abaixo do polegar, que sempre quase pode ser beliscada, não importa quanto de pele e osso seja a pessoa? A parte sutilmente mais sensível ao toque e às cócegas, na região abstrata entre polegar e indicador, nas costas da mão? A linha que firma a silhueta do maxilar sem alcançar o queixo? A área da planta do pé que, independente de quanto andemos descalços, não se suja? Sente-se: a parte interna da coxa que inicia pouco acima do joelho, localizada nem na parte superior, nem na parte lateral, mas entre um e outro, e que se estende até o atrevimento?

Eu poderia seguir indefinidamente, mencionando partes, inclusive, que tornariam este blog inapropriado para leitura pública -- embora ambas podências fujam de meu escopo. Muitas vezes, para que possamos reconhecer ou entender a importância de um sentimento, tanto o dado quanto o recebido, precisamos saber também o seu nome. Mas reconheço, antes de mais nada, que muitos nomes devem parar e permanecer na ponta dos lábios, a roçar de leve a alma, desfrutando daqueles instantes que não têm substantivo.

Mon, Nov. 3rd, 2008, 11:29 am
Sob um céu pesado

Numa certa manhã nublada de sábado, não há muito tempo, fui até um parque próximo de casa.

Eu gosto de parques. Algumas pessoas sentem necessidade de água; eu sinto de grama. Ter grandes porções de verde afagando os meus olhos, cada lâmina a refletir luz e orvalho sob um ângulo diferente, detendo aos poucos a humidade que se esvai ao longo do dia: tudo isso conforta o meu espírito ruminante. Além do mais, meu instinto diz que, salvo caso de incêndio, estar rodeado de árvores é estar protegido -- e eu sempre tento buscar o ponto mais protegido.

Então fui até este parque e me sentei em um de seus bancos de madeira, acendendo um cigarro. Usualmente eu me sentiria desestimulado a acender um cigarro, mas havia um largo cinzeiro ao lado do banco. (Mentira. Eu teria acendido o cigarro do mesmo jeito.) Era o que as pessoas -- exclusive eu -- costumam chamar de "dia feio", mas ainda assim não era difícil ver algumas delas correndo ou cachorros levando seus humanos para passear.
 
Vi uma menina, acompanhada de uns pais. Não tinha mais do que sete anos, e se movia com aquela pureza e liberdade que só as meninas crescidas conseguem desaprender, depois de crescidas. Dizer que era de felicidade diminuiria o seu sorriso; era de um maravilhamento que tecia e erguia a realidade ao seu redor. (Porque, afinal, é para as mulheres sorrirem que existe o mundo.) Ao acionar um poste de esguicho de vapor d'água, soltou um tão pequeno quanto legítimo grito de surpresa e de acontentamento, e então o instante eu saboreei duplamente: uma vez pelo trecho em si, e outra vez por poder guardar uma memória que ela própria não mais terá, anos após.
 
Muitos momentos depois, vi uma moça, acompanhada de um cachorro -- ou um cachorrinho, pois era filhote. Tanto ele quanto ela estavam sem coleira, e os dois também brincavam alheios a ruído e rumor como só as crianças brincam. Olhei em volta e constatei egoísta que só eu, dentre todas as pessoas do mundo, presenciava aquela cena: o cachorrinho corria junto à moça, com ela brincava de cabo-de-guerra com um graveto, equilibrava-se sobre um tronco deitado e latia a ela. Por fim a moça cansou-se e sentou-se em um banco; o cachorrinho fez o mesmo. Quantos momentos de alegria genuína vislumbramos em cada um dos nossos dias? Nos meus, são muito poucos; portanto, angariar esses pequenos universos é-me muito precioso.
 
Começava a espraiar-se uma fina garoa. Joguei o último cigarro no cinzeiro, levantei-me e fui embora, mais leve sob um céu pesado.

Sat, Nov. 1st, 2008, 08:25 pm
Breviário

"Angst" é uma palavra alemã que Kierkegaard originalmente atribui ao receio que o indivíduo sente diante da possibilidade de não cumprir as responsabilidades a ele delegadas por Deus. Depois a palavra se desenvolveu para se aproximar do conflito que o indivíduo sente entre os anseios do mundo, de seus próximos e de si mesmo.

Já que não sinto sob a pele do egoísta as exigências de terceiros, eu pessoalmente prefiro entendê-la, em diâmetro oposto, como a angústia sentida pelo indivíduo diante da plena consciência de sua total liberdade ante o mundo. Neste sentido, ela se torna, creio eu, uma das chaves forjadas pelo niilismo -- a corrente filosófica que diz não haver valor, moral ou significado intrínseco na vida. Eu concordo com o niilismo, no sentido de que somos nós quem constrói aquilo que nos motiva a continuar a viver. O significado da vida é algo inexpugnavelmente pessoal e intransferível e, portanto, não há resposta genérica ou absoluta.

"Malaise" é uma palavra francesa que designa a sensação de fadiga e desconforto que precede algumas doenças. Liricamente, a palavra se refere à sensação, muitas vezes sentida na adolescência, de que não cabemos na sociedade em que nos encontramos; de que somos diferentes e não conseguimos encontrar os nossos iguais.

Não me sinto deslocado. Estou ciente de onde me encaixo, vez que compreendo como a sociedade funciona e como as pessoas funcionam. Simpatizo-me com elas e, acima de tudo, respeito os seus sonhos e desejos. Apesar de nós, como humanidade, ainda termos tanto a aprender, há muita beleza no mundo -- coisas e pessoas dignas de serem vividas e pelas quais se vale a pena viver, se devidamente vislumbradas e abordadas. Tampouco me sinto isolado, à medida em que estou ciente de que há tantos outros como eu, genérica e não-genericamente.

"Spleen" é uma palavra inglesa que designa tanto o baço, nosso órgão, quanto a melancolia, nosso sentimento. Segundo uma teoria medieval, a saúde e o humor de uma pessoa variavam de acordo com os níveis de quatro fluidos produzidos em seu corpo: sangue, bile amarela, bile negra e fleuma. (Responsáveis, respectivamente, pelo humor sangüíneo, colérico, melancólico e fleumático.) O baço é quem supostamente produzia a bile negra.

Já mencionei não ter remorsos ou arrependimentos; nenhuma memória do passado consegue me assombrar. Por outro lado, as duas restantes -- a do presente e a do futuro -- podem me incomodar, e por vezes o fazem. A do presente tem inúmeras faces e me apresenta ainda mais inúmeros caminhos dentre os possíveis; não conseguindo distinguir qual é o verdadeiro, sinto-me não sangüíneo, colérico ou fleumático, mas melancólico. Embaçado, introspectivo e cansado, como um fantasma que não consegue existir e que, portanto, cala-se. A do futuro esconde a sua face. Sempre tento me lembrar de como ele é, mas nunca consigo.

"Tedium vitae" é uma expressão latina que define um cansaço insuperável da vida. É algo maior do que mero tédio; é a incapacidade que o indivíduo tem de permitir que a beleza da vida adentre o seu espírito. Hodierna e neurologicamente, é quando há produção insuficiente ou recaptação excessiva de determinados neurotransmissores, e.g. serotonina, o que dificulta ou impede a pessoa de sentir prazer.

Fri, Oct. 31st, 2008, 10:58 am
Quase nada = nada

Outro dia desses, eu estava folheando algumas páginas de matemática quando descobri que 0,999... (ou seja, um zero seguido por uma vírgula e infinitos 9s) é exatamente igual a 1. Não é uma aproximação; eles são o mesmo número. Este é um conceito extremamente básico de matemática com o qual, no entanto, eu nunca havia tido contato e tampouco me havia ocorrido.

Logicamente, o seguinte ocorre. A diferença entre 1 e 0,9 é de 0,1. A diferença entre 1 e 0,99 é de 0,01. A diferença entre 1 e 0,999 é de 0,001. Portanto, a diferença entre 1 e 0,999... é de 0, seguido de uma vírgula, seguido de infinitos 0s, seguido de 1. Mas como o número de 0s à direita da vírgula é infinito, nós nunca conseguiremos colocar o 1 final -- ou seja, a diferença é de 0, seguido de uma vírgula, seguido de infinitos 0s. Isso faz com que a diferença entre 1 e 0,999... seja equivalente a 0, o que torna os dois números idênticos.

Algebricamente, há modos diferentes de provar que 0,999... é igual a 1. Estas equações me lembraram muitas outras nas quais esbarramos na escola e que tentam provar, através de pequenos e discretos erros, afirmações como 1 = 2. (Ao contrário das equações errôneas, estas não contêm induções ao engano. Como elas, não exigem qualquer conhecimento matemático além do básico.)

Prova I.

  1
= 9/9
= 9 × 1/9
= 9 × 0,111...
= 0,999...


Prova II.

Primeiro definimos um valor para x:

      x = 0,999...

Multiplicamos ambos lados da equação por 10:

    10x = 9,999...

Subtraímos x de ambos lados da equação:

10x − x = 9,999... − 0,999...

Isso nos permite chegar a:

     9x = 9,000...

Concluindo, assim, que:

      x = 1


Prova III.

Se

        1/11 = 0,090909...

e

       10/11 = 0,909090...

então

1/11 + 10/11 = 0,999999...

Mas

1/11 + 10/11 = 11/11
             = 1



Há outras provas mais sofisticadas que fazem uso de limites, séries infinitas, encaixe de intervalos, cortes de Dedekind ou sucessões de Cauchy; todas chegam à mesma conclusão. O mesmo vale para qualquer dízima periódica cujo período seja 9. Ou seja, 2,2999... é igual a 2,3; 5,677999... é igual a 5,678; e assim por diante.

Por que isso acontece? Porque, no conjunto dos números reais, cada número pode ser representado de diversas maneiras diferentes. E depois dizem que nunca mais na vida usamos a matemática que aprendemos na escola, hm?

Thu, Oct. 30th, 2008, 09:32 pm
Nicks

Por quase uma década, fui freqüentador regular de uma sala de bate-papo -- na época em que ainda chamávamos salas de bate-papo de "chat rooms". Nela e através dela conheci um número de pessoas, algumas com as quais mantenho contato até hoje.

Ao longo dos primeiros quatro ou cinco anos, usei o apelido (ou nickname, geralmente abreviado para "nick") de "Wickedworm"¹, motivo pelo qual muitos me chamavam de "wick", "worm", "verme" ou "verminho", inclusive pessoalmente. De início, construí e escolhi este apelido devido às iniciais de meu nome coreano, mas a verdade é que imagens desconvidativas sempre tiveram minha atenção. A partir deste apelido, criava inúmeras variantes, dependendo de meu estado de espírito, sempre seguindo a estrutura "w-worm": "Weepingworm", "Wretchedworm" e "Whimsicalworm" são os três primeiros que me vêm à mente.

¹ Em inglês, "worm" significa "verme". Já "wicked" tem várias traduções possíveis, dependendo do contexto: "mau", "maligno", "perverso", "maldito".

Nos cinco ou seis anos seguintes, passei a utilizar meu próprio nome como apelido: Calebe. O primeiro incentivo veio de uma ex-namorada, também freqüentatriz, que torcia o nariz para "Wickedworm". De qualquer forma, eu me sentia cada vez mais cansado do jogo de fumaça e espelho que a internet erguia, e percebia que não tinha mais segredos a esconder ou papéis a interpretar.

Ainda assim, neste período, utilizei-me de outros apelidos para novamente traduzir estados de espírito. Quando me sentia suficientemente inundado por algum sentimento em particular, fazia uso de "-heart", como em "Blackheart", "Swanheart" ou "Whoreheart". (Curiosamente, todos homens automaticamente me tomavam por mulher quando eu usava "Whoreheart"; mas nunca qualquer mulher o fez. Isto serve para ilustrar o quanto os homens conhecem das mulheres.)

Transgredindo o baile de máscaras que os adultos desconfiados organizavam -- e alguns o faziam com razão --, sempre fiz questão de me identificar a quem perguntasse quem eu era, mesmo quando eu vestia um apelido não-padronizado como "Barrabás", "Iscariotes" ou "Édipo". Estes eram os outros três apelidos que eu usava.

Os dois primeiros são referência direta da Bíblia. Barrabás foi o arruaceiro que ganhou a liberdade e o direito à vida no lugar de Jesus Cristo, no julgamento mediado por Pilatos. Considero tremendamente atraente e engraçada a maneira como ele representa as escolhas erradas que o povo pode fazer; uma recordação de que tantas vezes os bons são punidos no lugar dos maus. Iscariotes é o sobrenome de Judas, o traidor de Jesus, e não requer maiores explicações: quem não gosta de um pária?

A estória de Édipo também é conhecida pela maioria: o rei de Tebas que, sem o saber, mata o pai e se casa com a mãe para, no fim, furar os próprios olhos. Também é ele que leva a Esfinge ao suicídio, ao resolver seu enigma, e este detalhe me interessa, mas eu usava o apelido porque Édipo representa a luta implacável contra o Destino.

Édipo Rei, de Sófocles, é uma das leituras obrigatórias para quem gosta de literatura. Além de ser uma das grandes homenagens à tragédia, ele me lembra de como mesmo os homens de boa vontade ignoram conselhos corretos, quando assim escolhem fazer. (Recuriosamente, era excessivo o número de mulheres que me abordavam reservadadamente quando eu estava como "Édipo". Até hoje não sei se elas se sentiam estimuladas pelo drama e destino que a estória tece, ou se gostavam da idéia de um homem que as visse como mães.)

Às vezes, inspirado pela commedia dell'arte, eu também usava "Arlecchino": o palhaço encrenqueiro e desajeitado que está perdidamente apaixonado pela Colombina -- a palhacinha bela, esperta e voluntariosa -- e que por ela é eternamente desprezado.

Wed, Oct. 29th, 2008, 04:06 pm
Do início ao reinício

Introduções e recapitulações ultracondensadas. [Lembretes adicionais entre colchetes.]

Carga elétrica é a característica inerente de algumas partículas subatômicas que faz com que elas se repilam ou se atraiam. Estas partículas, ao interagirem o suficiente entre si e mudarem sua carga elétrica, criam novas e especiais partículas chamadas "fótons" -- cuja manifestação na tessitura da realidade dá-se através de campos eletromagnéticos, que se espalham na forma de ondas.

Esta radiação eletromagnética, dependendo de seu comprimento de onda, recebe nomes diferentes: raios gama, raios X, luz ultravioleta, luz visível, luz infravermelha, microondas, ondas de rádio. (Só confirmando: sim, a luz que vemos é radiação eletromagnética.)

Energia não é criada nem destruída.

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Hidrogênio [número atômico: 1], o verdadeiro elemento-máter do universo e da vida, surgiu da nucleossíntese causada pelo Big Bang. [Se vocês estão pensando na possibilidade de eu explicar o Big Bang: não.]
 
Não se sabe exatamente como o nosso sol nasceu, mas supomos que ele se tenha formado a partir de uma grande nuvem molecular de hidrogênio que, devido à baixa temperatura e alta densidade de seu centro, entrou em ponto de colapso -- não tão diferente de como planetas (ou cidades russas) se formam. [Composição aproximada do sol: 75% hidrogênio e 24% hélio, ambos totalizando 99%.]

No centro ultradenso do sol, a gravidade e a temperatura são tamanhas a ponto de fundir alguns átomos de hidrogênio em átomos de hélio. [Há muita e muitíssima energia mantendo unidos os prótons e nêutrons dos núcleos atômicos. Vide Hiroshima e Nagasaki.] Cada novo átomo de hélio produz fótons que são prontamente absorvidos pelas partículas adjacentes e reemitidos numa direção aleatória -- isto, somado ao tamanho da estrela do nosso sistema solar, faz com que um único fóton recém-nascido leve algo como um milhão de anos para partir do centro e alcançar a superfície do sol.

Conforme o fóton se aproxima da superfície, depois de perder muita de sua energia ionizando o plasma solar [plasma é o quarto estado da matéria; uma espécie de supergás], ele faz com que elétrons livres interajam com o hidrogênio da camada mais externa, finalmente produzindo radiação eletromagnética no comprimento de onda da luz visível -- quando então o fóton escapa em direção a um planeta azul chamado "Terra". [Tempo total da viagem: um milhão de anos, oito minutos e vinte segundos.] Digamos que o fóton tem um comprimento de onda de aproximadamente 610 nanômetros, o que nos permite caracterizá-lo como cor-de-rosa.

Ao alcançar a atmosfera terrestre, outras partículas começam a interceptar os fótons; ao interagir com eles, o ar dispersa, i.e., refrata parte da radiação responsável pela cor azul (e por isto o céu é azul) e deixa passar a radiação responsável pelas outras cores, principalmente o amarelo (e por isto o sol é amarelo). [Composição aproximada do ar: 78% nitrogênio e 21% oxigênio, ambos totalizando 99%.] Felizmente, é este mesmo ar [oxigênio: O2; ozônio: O3] que dispersa a maior porção da cor hiper-azul da radiação, também conhecido como ultravioleta. [Ainda assim, não se esqueçam de passar protetor solar.] Como nosso fóton é cor-de-rosa, ele se esquiva facilmente das partículas de nitrogênio e oxigênio.

Então, depois desta longa jornada, ele consegue pousar numa flor.

[Flor > pétalas > tecidos parenquimáticos > células eucariontes > organelas > água e polímeros biomoleculares > átomos de carbono, hidrogênio, nitrogênio e oxigênio.]

O fóton cor-de-rosa não tem tempo para descansar: ele é prontamente rebatido por um átomo de pétala e, assim, vaga pelo ar até alcançar o olho da pessoa que está a observar a flor. Ele atravessa a córnea, o humor aquoso, a pupila e o humor vítreo até tocar a retina, que se localiza na parede interna do fundo dos olhos -- mais especificamente a fóvea, a região com maior concentração de células fotossensíveis e responsável pela alta resolução de qualquer objeto, pessoa ou cena a que estejamos prestando atenção.

A célula fotorreceptora tem uma ponta, em forma de bastão ou cone, repleta de uma proteína chamada "opsina". Quando o fóton é absorvido por uma opsina, tem início uma série de reações bioquímicas...

[Aos curiosos, a opsina ativa muitas proteínas transducinas que, por sua vez, acionam ainda mais enzimas fosfodiesterases, que, por sua vez, catalisam a hidrólise de ainda muito mais nucleotídeos -- in casu, guanosina monofosfato cíclico (GMFc) é quebrada em guanosina monofosfato (GMF). Como é a GMFc e não a GMF que mantém abertos os canais de íons, eles são fechados, causando uma hiperpolarização que desestimula a liberação do neurotransmissor glutamato dentro da célula e uma depolarização que faz o contrário fora dela, alterando o potencial elétrico de sua membrana. Pronto. A mensagem é recebida pelas células bipolares que conectam as fotorreceptoras aos gânglios retinais.]

... uma série de reações bioquímicas que, alimentadas pelas mitocôndrias das células fotorreceptoras, acabam por atingir as células neuronais -- os gânglios. O cor-de-rosa do fóton percorre eletroquimicamente o sistema nervoso (propiciada pela diferença de voltagem entre o seu interior e exterior) até chegar no córtex visual, onde a informação será processada, guardada, restaurada e entrelaçada a tantas outras pétalas, flores, perfumes e versos que passaram pelos nossos sentidos.

A partir deste ponto, não há teoria única para o que acontece. Como e onde nossa memória é armazenada? De que maneira nós criamos pensamento ou mantemos consciência? De onde surgem nossos sonhos e criatividade? Não sabemos, mas uma coisa é certa: por mais que tenham sido perdidos energia e momentum, a fagulha do coração da estrela é a mesma que mantém viva a fagulha do coração humano.

Eis aí, então, uma das muitas trilhas percorridas da criação do universo através e até a nossa imaginação.

Tue, Oct. 28th, 2008, 10:35 am
The book is on the table

O que há sobre a minha mesa de trabalho?

Há um computador. Depois de queimar dois PCs sucateados, o help desk finalmente me concedeu um computador com configuração minimamente decente -- ainda que o monitor permaneça a ser um CRT. Os fones ("fones de cabeça"?; headphones, não earphones) são de qualidade profissional, já que são meus principais instrumentos de trabalho, mas os MP3s também agradecem.

Há um carrossel. Eu chamo aqueles pequenos porta-trecos giratórios típicos de escritório, com lápis, caneta, régua, estilete, clipes, etc., de "carrossel". (Os afiados extratores de grampos se chamam "vampiros", para mim.)

Há um vidro de pimenta comari curtida em azeite. Eu tinha o costume de levar pimenta ao refeitório, mas a pressão deste recipiente se tornou tanta que a tampa só abrirá com muita dificuldade. Depois que um colega de trabalho retalhou a própria mão ao tentar abrir e conseqüentemente explodir um pote de pimenta, estou esperando eu me subscrever a um plano de seguro de saúde antes de este vidro deixar de ser enfeite. Há também uma pimenta malagueta de pelúcia.

Há uma esfera de gravetos. Na realidade, é um único e longo graveto retorcido sobre si mesmo, de modo a formar uma esfera oca. Pode parecer tolo, mas isto representa o meu vínculo com a natureza e o respeito que ela evoca em mim.

Há uma barata de plástico. Encontrei esta barata no nosso estoque de material, abandonada junto a alguns grampeadores e perfuradores tetânicos. Desde então, ela passeia pela minha mesa. O único cuidado que devo ter é o de não permitir que a minha chefe a veja; ela tem asco por baratas.

Há um pote com folhas desidratadas para chá. Há, junto, um pequeno sachê reutilizável de metal, para preparar chás. Um copo de vidro, uma caneca de argila onde imprimi "tachigraphia", e muitos copos de plástico -- que as meninas da limpeza insistem em jogar fora na manhã seguinte, apesar de eu tentar reaproveitá-los. Uma caixa cúbica de papel com quatro canudos de lanchonete. A caixa cúbica era o meu "banco de frutas", até eu me dar conta de que nela eu não conseguia perceber quando as frutas estragavam.

Há um porta-retratos. Nele, há um bordado que Ela fez para mim, além de três pedaços de papel. No primeiro há um smiley desenhado a esferográfica azul, por mim; no segundo está impresso "Não é de verdade.", também por mim; no terceiro está escrito "É só um dia!", por minha amiga e colega de trabalho, C.

Há, num pequeno suporte vertical acoplado à mesa, um pedaço de barbante amarrado num grampo usado, grudado com fita durex. Obra de C. No mesmo suporte, está fixada uma folha sulfite com o regime de horários do nosso setor e outra com a lista de ramais para os quais ligo com mais regularidade ou necessidade.

Há, de vez em quando, um telefone. C. às vezes joga o nosso ramal para cima da minha mesa. (Isso quando não chuta a minha cadeira ou fica abrindo as minhas gavetas.)

Há dois pequenos dados. São de resina plástica, como os de qualquer jogo de tabuleiro. Inicialmente, eu havia pensado em usá-los para tomar decisões; mas nunca precisei deles.

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Seguem então os itens temporários -- que estão na mesa pelo menos até eu fazer uso ou encontrar outro lugar para guardá-los.

Há uma maleta de gamão. Sobre a maleta, há uma caixa com peças de xadrez em madeira. Sobre a caixa, há um relógio de xadrez. (Não; não tenho jogado ultimamente. O tabuleiro de xadrez é em crochê e no momento estão usando para adornar o forno de microondas.) Cinco maçãs. CDs e DVDs cujos conteúdos já não consigo lembrar. Uma pequena pilha de papéis A4, utilizadas para rascunho e anotações diversas. Uma garrafa de Coca-cola cheia d'água. Um barbante de meio metro. Um calendário. Duas caixas de leite de arroz e um tupperware de gérmen de trigo. Um livro chamado "Teoria Pura do Direito", de Hans Kelsen.

Pensando melhor, talvez minha chefe tenha razão em reclamar da minha mesa.

Mon, Oct. 27th, 2008, 09:19 pm
Viral

O advento do YouTube popularizou no Brasil o termo "viral", adjetivo aplicado a tudo aquilo que, sendo exposto a alguém, impele a pessoa a emular ou iterar a mesma coisa a terceiros. "Viral" vem da expressão "meme viral", e meme é um conceito da protociência (ou pseudociência, diriam alguns) da memética.

Richard Dawkins, mais conhecido hoje pela sua feroz posição antiteísta, escreveu na década de 70 um livro chamado "O Gene Egoísta", no qual ele ilustra uma analogia entre os genes e algo que ele chama de "memes". O primeiro tenta cruzar a sua carga de informação com o maior número possível de outras cargas de modo a criar o máximo de variabilidade e o segundo tenta fazer sua carga de informação sobrepujar e exterminar as outras cargas -- mas ambos o fazem apenas em nome de seus próprios e biológicos interesses de auto-perpetração.

Da mesma forma que os genes são as unidades de nossas características físicas, os memes são as unidades de nossas características psíquicas: toda idéia, conceito ou comportamento está armazenado em um meme. Como qualquer outro ser vivo, toda idéia nasce, cresce, reproduz-se e morre. (Dawkins prossegue dizendo que nós somos meramente veículos para genes e memes.)

Peguemos uma religião fictícia. Quando o seguidor desta religião não tolera qualquer visão telúrica ou teológica diferente da sua, é porque o meme encontrou em seu hospedeiro um ambiente perfeitamente propício para se instalar e passar a reinar, aproveitando-se dos memes já presentes e desestimulando a entrada de novos memes. Quando o sectário se sente impelido a discorrer a respeito e tentar convencer os outros de que a sua religião é a correta, o meme está tentando se reproduzir. Adicionalmente, os memes de religião estão entre os mais eficazes porque estabelecem sistemas de punição e compensação aos seus hospedeiros -- mas um dos grandes trunfos destes memes está em embasar-se naquilo que é misterioso e desconhecido, em vez de naquilo que é evidenciado e conhecido.

Quando uma pessoa entra em contato com uma idéia, conceito ou comportamento, o meme recém-chegado interage com os memes residentes. Ao encontrar as condições necessárias à sua sobrevivência, inclusive memes amigáveis, lá permanece, muitas vezes se reproduzindo, até ser morto por outros memes. Nem todos memes são mortíferos (vide memes de criatividade), e outros tornam-se mais fracos ou fortes conforme contexto (vide peer pressure).

Assim, o adjetivo "viral" na realidade refere-se aos memes com alto potencial de contaminação, independente dos contramemes que estejam instalados no hospedeiro em potencial. Geralmente têm curta expectativa de vida, mas se reproduzem em quantidade e velocidade consideráveis.

Pronto. Agora vocês já estão infectados pelo metameme -- o meme da própria memética.

Thu, Oct. 23rd, 2008, 11:59 am
Música: O Gato

Três minutos de piano: O Gato. As pausas são intencionais.

Mon, Oct. 13th, 2008, 08:32 pm
Outono

Este blog está interrompido por tempo indeterminado. Sou grato aos amigos que confrontaram e somaram suas opiniões às nossas.

Sat, Oct. 11th, 2008, 07:50 pm
Senão Ela

Às vezes até contrariamente à minha vontade, sempre fui uma pessoa sociável: então, ao longo da vida, eu conheci pessoas. Mais do que sociável: aberto. Muitas delas, senão quase todas, ensinaram-me coisas -- coisas que sei, coisas que uso, coisas que confortam e empurram --, mas dentre as que me mostraram o que é realmente importante na vida estão as mulheres.

Eu conheci mulheres fantásticas. Isso é fato. Eu poderia dizer delas, dedicando enciclopédias inteiras às suas nuanças -- mas seria um desperdício, uma vulgarização da vivência única que é compartilhar cotidiano com elas. Delas, conheci e vislumbrei mundos, mundos tão plenos de uma beleza que só pode ter sido caligrafada por miríades e multitudes, e tentar fazer os homens enxergarem ou sequer entenderem isso é como semear em areia. Não vinga. Eles sempre serão aquém, e lamento por isso -- por eles e pelas mulheres.

Porque é através da memória e da experiência que definimos nossos critérios e parâmetros, o sol que incomoda o tuaregue não é o mesmo sol que incomoda o esquimó. Então, a cada mulher conhecida, quisesse ela ou não, capturei de sua alma aquilo que era mais essencial, mais depuradamente feminino e miraculoso; com estas cores roubadas, aos poucos e ao longo das décadas pincelei o mais extraordinário quadro imaginário da Beleza.

A Beleza una e inefável; aquela que, se fosse apresentada em sua versão pura aos homens, cativaria as suas almas como o céu claro cativa a borboleta e desfaria os seus corações como uma singela canção desfaz o silêncio. Atentei ao bom senso de nunca buscar a Beleza, tampouco cometi a tolice de compará-la às mulheres que eu conhecia -- mas sempre a guardei num lugar secreto onde eu pudesse, de tempos em tempos, admirá-la.

Ontem, em um café, conheci pessoalmente a sua versão viva.

A versão viva é diferente. Ela contém todas as cores -- embora nem ela, desconfio, conheça de todas elas --, mas também guarda muito mais. Sorri como eu jamais sonharia que alguém pudesse sorrir; ri com um deleite sem o qual não sei como meu espírito viveu até hoje; e olha com os olhos mais lindos que já vi na vida. É ali, no infinito daqueles olhos, que a minha existência é represada.

Pela minha vida inteira até o momento, o senso comum me enganou. Todos me diziam que ela não existe, que ela não existe -- mas ela existe. Agora, quem não mais existe são todas as outras. Hoje reconheço a parte que me justifica; a parte que me tem significado.

Infelizmente, esse incidente me fez lembrar de uma parábola persa, que copio de um site qualquer e colo abaixo.

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Certa tarde, conta uma antiga história sufi, Nasrudin tomava chá e conversava com um amigo sobre a vida e o amor.

“Mullah, por que o senhor nunca se casou?”, perguntou o amigo.

“Bem”, respondeu Nasrudin, “para dizer a verdade, passei toda a minha juventude a procurar a mulher perfeita. No Cairo, conheci uma moça linda e inteligente, com olhos que pareciam olivas pretas, mas ela não era muito cortês. Depois, em Bagdá, conheci uma mulher de alma generosa e amiga, mas não tínhamos muitos interesses em comum. Muitas mulheres passaram pela minha vida, mas em cada uma delas faltava alguma coisa, ou alguma coisa estava demais.
 
“Então, um dia, eu a conheci. Era linda, inteligente, generosa e bem-educada. Tínhamos tudo em comum. Na verdade, ela era perfeita.”

“E então”, replicou o amigo de Nasrudin, “o que aconteceu? Por que você não se casou com ela?”

Pensativo, Nasrudin sorveu mais um gole de chá e concluiu: “Infelizmente, parece-me que ela também estava à procura do homem perfeito.”

Thu, Oct. 9th, 2008, 09:19 pm
Como eu descreveria o céu a uma pessoa cega

O céu, em dias de calor ou quando o ar não está pesado, é uma coisa suave como quando tocamos um lençol feito do tecido mais liso e macio; mas, em vez de sentirmos o tecido na ponta dos dedos, sentimo-lo no fundo dos olhos. É como tomar um sorvete de limão que não seja nem tão ácido, nem tão gelado. É como escutar uma música de uma nota só, e ainda assim achá-la bonita. Ele emite força e frescor a um mesmo tempo, como um jovem no auge de sua forma -- força porque, se ele quisesse cair, ninguém no mundo seria capaz de sustentá-lo, e frescor porque poderíamos mergulhar nele se conseguíssemos pular tão alto. Ele parece ser quase de mentira; isso se dá porque observá-lo é como atravessar um rio raso com a metade superior do espírito, em vez de com a metade inferior do corpo. Como o próprio ar que respiramos, não há divisões: ele é um só.

No céu, em dias de calor ou quando o ar não está pesado, às vezes não há uma nuvem sequer. Contudo, quase sempre elas por lá passeiam e, se pudéssemos tocá-las, a maioria delas seria do tamanho da nossa mão, quando pequenas, ou da extensão do nosso braço, quando grandes. Elas adquirem muitos contornos diferentes: às vezes parecem pedaços de algodão muito fino que, arrancados com desleixo e fios soltos, foram lançados para cima e grudaram no teto; às vezes parecem ser densas como espuma de colchão. Se colocássemos as nuvens na ponta da língua, elas se desfariam e derreteriam no céu da boca, como algodão-doce. Quem presta atenção pode perceber que elas deslizam muito, muito lentamente e horizontalmente -- para nós, elas nunca descem ou sobem. Sempre podemos dizer quando há poucas ou muitas nuvens; mas nem sempre sabemos onde uma termina e outra começa.

O céu, em dias de frio ou quando o ar está pesado, é uma coisa que pressiona a alma, mas sem machucá-la. O céu é como um sorvete que não seja doce, e as nuvens são como algodão-doce levemente amargo. As nuvens se acumulam, às vezes cobrindo por inteiro o teto do mundo. Se passássemos os dedos por entre elas, só conseguiríamos fazê-lo com dificuldade; seria mais fácil torcê-las como torcemos toalhas molhadas -- toalhas molhadas que se desfazem em pleno ar conforme chovem.

Não me atrevo, por enquanto, a tentar descrever o nascer- ou o pôr-do-sol, porque envolvem conceitos abstratos demais, então essas são as breves impressões que tenho para compartilhar do céu e das nuvens.

Mas que maneira há explicar como é a cor azul para alguém que nunca enxergou cores? Que maneira há narrar como é saber a forma de algo sem precisar tocá-lo? Toda e qualquer palavra, por mais precisa ou extensa que seja, não será capaz de emular as infinitas nuanças da cor azul ou do tocar-com-olhos. Da mesma forma (e talvez isso soe arrogante, mas não é), não há como descrever completamente o que estou sentindo para as pessoas que nunca o fizeram.

Wed, Oct. 8th, 2008, 08:46 am
Música: Realejo

Música ao fundo.

"Olá, senhorita e senhor. Não querem ver o que Farfalho, o Papagaio, tem a dizer do futuro? Ah, eis aqui. O que diz o cartão? Não! Não me contem: se me contarem, não se realiza. Não é meu segredo; é vosso. Pelo sorriso, é boa coisa... Obrigado, boa tarde, e que sempre haja música."

Tue, Oct. 7th, 2008, 06:27 am
Sabores de pizza

Outro dia eu perdia o olhar em mais um folheto de pizza delivery. Há em São Paulo um número descomunal de pizzarias, e todas elas servem os mesmos sabores, usando os mesmos ingredientes, preparados da mesma forma. Isso não é compreensível. Se alguém quer uma pizza de pepperoni, por exemplo, não é preciso ter trinta e seis opções diferentes.

Pensando nisso, comecei a rascunhar um cardápio daquela que eu consideraria uma pizzaria interessante. Há pinceladas de cozinha fusion, mas no geral são (ou deveriam ser) receitas tradicionais. As descrições não denotam o procedimento inteiro -- orégano e manjerona são sempre adicionados somente ao final --, mas servem apenas de base para a imagem principal.

Cabe salientar dois detalhes. Primeiro: assim como em todo o resto, também em culinária e gastronomia sou apenas um iniciado; mas, estando familiarizado com os sabores destes ingredientes e seus preparos, estou bastante certo de que estas receitas funcionam, se devidamente ajustadas. Segundo: este não é o cardápio completo.

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Atum • Molho à base de vinho branco coberto por fatias de atum marinado em limão, shoyu e ervas finas, sob folhas de rúcula, endívia e radicchio, salpicado de macadâmias. Massa de arroz.

Calabresa • Molho de tomate coberto por calabresa moída e levemente caramelizada no molho de tomate, sob azeitona, pimentão e pimenta-de-bico picados e finas rodelas de cebola, insinuado de pimenta-do-reino fresca moída. Massa de aipim.

Cordeiro • Molho à base de tahine coberto por fatias grelhadas de contra-filé de cordeiro marinadas em shoyu, zattar e açúcar, salpicado de folhas de hortelã. Massa de grão-de-bico.

Costela • Costela suína desossada e marinada em chogochujang¹, coberta de lascas de alho, cebola e pimentão, salpicada de folhas de gergelim, a fio de óleo de gergelim torrado. Massa de trigo.

¹ Gochujang é uma pasta coreana de pimenta fermentada; chogochujang é a mesma pasta de pimenta adicionada de vinagre, açúcar, alho picado, sementes de gergelim torrado e óleo de gergelim torrado.

Figo • Molho à base de foie gras d'oie (ad libitum) coberto por fatias de figo, finas fatias de maasdam e rodelas de tomate, salpicado de macadâmias. Massa de trigo.

Frango • Frango umedecido e desfiado no próprio caldo, com salsinha, alho-poró, tomate, cebola e palmito de pupunha picados, insinuado de páprica picante, salpicado de orégano. Massa de trigo.

Frango e Mel • Frango umedecido e desfiado no próprio caldo, entremeado em sutil molho de mel, mostarda e maionese, coberto por finas rodelas de cebola e lascas de amêndoas. Massa de batata.

Presunto • Molho béchamel com gruyère, emmenthal e ervilhas coberto por fatias de prosciutto e aspargos, salpicado de pistache e manjericão. Massa de trigo.

Queijo • Molho de tomate coberto por fatias de camembert e emmenthal, lascas de provolone, salpicado de parmesão e manjerona. Massa de trigo.

Salada • Molho de tomate coberto por folhas de radicchio e rúcula, pequenos filetes de tomate seco, pecãs e ricota fresca, garoado de gotas de limão, azeite de oliva e molho Worcestershire. Massa de milho.

Tofu • Molho à base de shoyu deitado sob shimeji, shiitake, endívia, tofu macio e broto de feijão, a fio de óleo de gergelim torrado. Massa de yam.

Sat, Oct. 4th, 2008, 02:55 pm
Associação livre

Hoje, no chuveiro, eu estava me lembrando de um post da Flines Bo em que ela menciona que água é uma das coisas mais inacreditáveis que existem. Concordo plenamente com ela (e, caso perguntem, também concordo em relação ao canguru).

Existem muitos aspectos da água que são fantásticos (principalmente a maneira como ela sacia a nossa sede ou dissolve as coisas), mas numa abordagem mais técnica, água contém muitíssima informação. Diferente dos sólidos e dos gases, o estado líquido da água contém infinitas partes móveis, palpáveis e visíveis -- cada uma destas partes constantemente emitindo outra tanta quantidade de dados, a maioria relacionada a som e luz.

É este o motivo pelo qual, nos DVDs, as cenas com luz refletida em água são as que mais têm artefatos e distorções -- é difícil compactar a imagem da água em movimento, porque contém muita informação singular. (Vide teoria da informação, Claude Shannon.) Da mesma forma, quando a pessoa quer impedir o funcionamento eficiente de escutas ou grampos, basta abrir as torneiras -- a quantidade bruta de informação do som da água sobrepuja os sons restantes.

Talvez seja por isso que, em uma série em quadrinhos chamada Os Invisíveis, extraterrestres se utilizam de líquidos para transmitir informação: abre-se uma lata como de refrigerante e toma-se conhecimento. Ironicamente, a imagem da água é misticamente associada ao desconhecido, ao inconsciente, à intuição. (Atributos femininos. Vide Lilith que, segundo textos apócrifos e o folclore judaico, depois de ser a primeira esposa de Adão, desceu ao Mar Vermelho para dar à luz todos os monstros marinhos.)

Mas eu falava d'Os Invisíveis, cujo título foi retirado da expressão haitiana "les invisibles" -- os espíritos que vagam pelo mundo do voduísmo, proximamente relacionados aos loas e orixás africanos. O curioso é que, ao contrário do que diz a cultura popular, o voduísmo sequer se utiliza de "bonecos vodu"; esses bonecos têm origem em rituais pagãos europeus.

Europa... Então me lembrei que nos últimos dias recebi um spam com fotos de Toledo, Espanha. Dizia a apresentação de como Toledo foi um grandes centros de tolerância religiosa, abrigando coexistência pacífica entre cristãos, judeus e muçulmanos. Isto provavelmente foi até Tomás de Torquemada aparecer, lá pelo século XV, e se tornar o mais feroz e famoso arauto da Santa Inquisição.

Curiosamente, foi na Idade das Trevas, quando expulsaram os mouros da Europa, que os muçulmanos alcançavam o auge de seu conhecimento técnico-científico. (Enquanto o médico europeu não tinha a menor noção de assepsia e sangrava os enfermos até a morte ou abria-lhes a cabeça para retirar a "pedra da loucura", vide Hyeronimous Bosch, o médico mouro lavaria a sua ferida, cauterizando-a se necessário, trocando as faixas com regularidade. Quem sabe como a Europa seria hoje, se os muçulmanos não tivessem sido expulsos?)

Aliás, há poucos dias foi o fim do mês de Ramadã, quando os maometanos (mas não diga a eles que os chamei assim) jejuam por um mês. O jejum, obviamente, não é contínuo: ele é praticado entre o nascer- e o pôr-do-sol de cada dia, e não é permitido comer, beber ou ter relações sexuais. Para que se lembrem de que todos adoram e temem ao mesmo Deus, o fim do Ramadã coincidiu com o Rosh Hashanah, o ano-novo judaico (feliz 5769!), que é seguido por dez dias até culminar no Yom Kippur, ocasião na qual os judeus jejuam por vinte e cinco horas.

Por que vinte e cinco horas, e não vinte e quatro? Porque os astrônomos da Antigüidade eram fenomenais, e todos tinham plena consciência de que o ano solar não tem exatos 365 dias, mas sim 365 dias, cinco horas e uns trocados. Assim, o que nós conhecemos por "dia" na realidade tem vinte e quatro horas e algumas frações que, para serem cumpridas integralmente, foram simplificadas em vinte e cinco horas. Este é o mesmo motivo pelo qual as fadas fazem acordos que duram um ano e um dia, e não meramente um ano.

E lembrando de fadas...

Fri, Oct. 3rd, 2008, 07:10 pm
Trechos do turbilhão

Admito: às vezes eu me preocupo demais.

O mundo não ajuda muito; o número de de detalhes e variáveis é assolapador, e considerar cada partícula do mecanismo da realidade exige uma atenção enervante, exaustiva. Por que se preocupar tanto?, podem alguns perguntar. É como desmontar um relógio para remontá-lo e, ao final, perceber que sobrou um parafuso. Dirão os mais práticos que, enquanto o relógio estiver funcionando, o parafuso restante não tem importância. Dirão os preocupados ou neuróticos que todo parafuso é importante.

Para mim (e para a maioria das pessoas, creio, mesmo que instintivamente), o mundo é uma teia multidimensional de conceitos, símbolos e metáforas. Numa dimensão cognitiva menor, por exemplo, se eu me recuso a quebrar o galho da aŕvore que cai sobre mim, provavelmente também me recuso a quebrar o braço da pessoa que me fere. Então o parafuso restante não é só o parafuso restante; é também tudo aquilo que o pode representar. Recusar um detalhe, para mim, pode significar recusar todos os detalhes.

É claro que, em muitas circunstâncias, i.e., nas dimensões maiores, não é preciso observar tudo. Às vezes os detalhes meramente não têm importância; às vezes os detalhes são tantos que transbordam todos os nossos sentidos; às vezes há acordos entre as partes que dispensam parte dos detalhes, sob cláusulas tácitas. Nestes casos, o segredo está em tomar em ampliar o campo de visão, tomando de distância que permita nebular o foco e a precisão com que percebemos as coisas. Os detalhes se embaçam e se diluem, como quando o míope guarda os óculos. É o que eu chamo de "arredondar para cima."

Ainda assim, restam outras preocupações. No mundo-distante, os pequenos detalhes tornam-se invisíveis e desaparecem; contudo, a parte que permanece visível mas ambígüa adquire um peso maior -- daí "arredondar para cima", e não "arredondar para baixo".

É como quando tenho um compromisso. Se eu sei que me apronto em 20 minutos, mas não sei se o telefone tocará ou se me esquecerei de alguma coisa, conto 30 minutos. Se eu sei que o ônibus completa o percurso em 16 minutos, mas não sei se ele demorará ou quebrará, conto 20-25 minutos. E assim por diante, para no final somar os valores redondos e acrescentar no mínimo 15 minutos ao valor subtotal -- caso eu não conheça o local, no mínimo 30 minutos.

Por que faço isso? Porque chegar com meia hora de antecedência (ainda que seja meia hora simbólica) não me custa nada, mas chegar atrasado me desagradaria -- mesmo que a pessoa não se importe com atrasos. O que nos leva à conclusão de que às vezes me preocupo demais. E toda essa preocupação com detalhes é elevada àlguma potência quando se trata de pessoa com quem me importo -- e a mais outra potência quando a pessoa é mulher. (Mulheres têm por relevantes coisas absolutamente misteriosas a nós homens; é preciso prestar muitíssimo mais atenção.)

De qualquer forma, nos últimos meses, tenho conhecido de uma leveza que, muito mais do que tem me surpreendido, tem me libertado. Ainda há muitíssimos aspectos desta leveza que não conheço, mesmo porque, desconfio, eles são infinitos; mas aos poucos bebo do seu sorriso -- e como é lindo o seu sorriso... --, e alivio o peso da minha sombra.

Thu, Oct. 2nd, 2008, 01:06 pm
Música: Usquam

Basta clicar neste link para o MP3Tube, quem se interessar em ouvir uma pequena música minha, Usquam: piano, instrumental, quase dois minutos. Está um pouco desajeitada, mas por ora estou impedido de afinar os detalhes.
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Sun, Sep. 28th, 2008, 08:47 am
Paralisia do sono

Há um distúrbio do sono que se chama "paralisia do sono" e que, embora tenha incidência relativamente comum, infelizmente não é muito divulgado.

Conforme adentramos o estado do sono, o nosso cérebro ameniza ou desativa algumas das nossas funções físico-fisiológicas, em especial os neurônios motores, responsáveis pelo movimento dos músculos. (É este mecanismo que nos impede de andar ou correr enquanto sonhamos andar ou correr, por exemplo.) O córtex visual primário também é desligado, mas suas áreas adjacentes permanecem ativas -- da mesma forma como ocorre quando fechamos os olhos e pensamos ou lembramos de alguma cena, pessoa ou objeto. (É este mecanismo que sustenta, basicamente, a parte visual dos sonhos.)

Agora imagine o que acontece quando a pessoa está na sutil transição entre a vigília e o sono, já tendo adentrado o sonho, quando ela repentinamente desperta -- mas a parte responsável do cérebro acha que ela ainda está dormindo e sonhando. Não é necessário imaginar; eu conto.

Os neurônios motores não voltam a funcionar, então você permanece paralisado na cama, sem poder mover qualquer músculo voluntário; mas todo o restante do cérebro funciona, então você está plenamente consciente. A paralisia, por si só, já seria suficientemente constrangedora, quando não meramente despesperadora. Mas seus olhos estão abertos e seu córtex visual secundário não foi, como deveria ter sido, desativado. Seus sonhos -- as alucinações visuais que nós chamamos de sonhos -- começam a transbordar para a realidade, sem o filtro do superego freudiano para nos poupar dos detalhes piores. Você passa a enxergar os seus sonhos como eles realmente são; não com seus olhos mentais, mas com seus olhos físicos.

Na prática, isso equivale a cadáveres caminhando pelo seu quarto e demônios dançando nas paredes como grandes aranhas, com um pequeno ser humanóide sentado sobre o seu peito. Gritos desesperados, cantos fúnebres, gemidos de seres que não deveriam existir. Desconhecidos tocando seu corpo. E o pior de tudo: você não está dormindo. Esta é a parte variável, ainda que invariavelmente assustadora. Os elementos constantes de toda ocorrência são a grande dificuldade em respirar, a sensação de morte iminente, e a certeza de que algo verdadeiramente maligno está a prestar atenção em você.

A paralisia do sono é um fenômeno que atinge todas as culturas, embora assuma nomes e formas diferentes. Na maior parte do mundo, é quase sempre um fantasma, um espírito mau ou uma bruxa velha que se senta sobre o nosso peito, dificultando ou impedindo a respiração. Em alguns lugares do México, diz-se quando deste incidente que "se me subió el muerto." Na Nova Guiné, é dito que as árvores sagradas se alimentam das pessoas durante a noite, e que a paralisia do sono se dá quando acordamos durante este processo. Nos trechos ocidentais, por vezes são confundidas com abduções alienígenas -- ou possessões demoníacas, as quais algumas religiões tentam combater.

É a este incidente que a palavra "pesadelo" originalmente se refere; daí o prefixo "peso". A palavra inglesa "nightmare" se refere a uma "égua noturna", como podemos ver neste quadro de Henry Fuseli, 1781, mas a etimologia de "mare" envolve um espírito bastante parecido com o íncubo -- palavra que, aliás, define "pesadelo" em italiano. (Em oposição, súcubos são os espíritos responsáveis pela polução noturna.)

Considerável parte da população humana experienciará este fenômeno ao menos uma vez na vida, mas ninguém sabe o que o causa. Alguns arriscam dizer que o fenômeno é propiciado pelo acúmulo de emoções muito intensas ao longo do dia e/ou ciclos irregulares de sono, aliado a fatores genéticos e históricos psicológicos. Nos casos mais drásticos, em que há possibilidade de incorrer em síndrome do pânico, bastará medicar com clonazepam ou ritalina. Ainda bem que o meu é brando.

Wed, Sep. 24th, 2008, 09:18 pm
Conto: O Inalcançável

O Inalcançável
por Calebe

A primeira vez em que Lácio foi tomado pelo êxtase, quando ainda era uma criança, a preocupação de sua mãe buscou diversas hipóteses: da depressão, passando pela surdez precoce, alcançando síndromes desconhecidas e imaginárias. Seus receios se dissiparam com o tempo, passando a aceitar, cada vez com mais naturalidade, esses incidentes.

Ela e Lácio passeavam pelo parque de diversões ao entardecer de um inverno. Havia muita gente, apesar de fazer muito frio, e pelo restante de sua vida o menino se lembraria da maneira como as pontas dos dedos de suas mãos doíam naquele dia. Trocar constantemente a mão que segurava a de sua mãe era um alívio temporário, porque a mão abandonada, por mais que ele fechasse o punho, logo esfriava. Foi o dia em que ele teve consciência de que gostaria muito de usar luvas, embora houvesse reclamado e feito careta horas antes, quando sua mãe tentara colocá-las nele. Talvez o frio houvesse aguçado os seus sentidos, da mesma forma como o vento alimenta a labareda, mas a verdade é que o menino se concentrava em escolher o próximo brinquedo.

Sua mãe havia parado em frente à barraca de algodão-doce e, para lhe comprar um, havia soltado sua mão. Com as duas mãos geladas, ele procurava se distrair para não pensar no frio. Então o êxtase veio.

A silhueta da roda-gigante girando lentamente contra o pôr-do-sol, desenhada por cima do céu com nuvens que quase já se apagava no entardecer. A música distante do realejo enferrujado misturando-se ao burburinho indistinguível da pequena multidão. O aroma suave do frio e do açúcar do algodão-doce. A dor nas pontas dos seus dedos. Repentinamente, inesperadamente, a plena realidade esmagava os seus sentidos em toda a sua magnitude. A silhueta não era apenas uma silhueta: era um emaranhado de sombras que se cruzavam e se entrecruzavam para destacar, a cada momento, uma tonalidade diferente e única de azul final entre as suas brechas de luz. As notas do realejo reclamavam de alguma coisa incompreensível, dando trilha sonora à consciência de que cada pessoa naquele parque de diversões tinha a sua própria pessoa, a sua própria carga de experiências, planos e vontades, sensações e sentimentos. O que o açúcar terminava, os dedos começavam. Tudo se refletia em tudo.

Lácio não entendia o que estava acontecendo. Ele só conseguia se sentir emocionado pela beleza crua e explícita de toda a existência, e sentia isso de um modo tão intenso, tão violento, que não lhe restou alternativa senão chorar. Começou a chorar desesperadamente entre o que os soluços lhe permitiam, e uivava de agonia e êxtase como não cabe a uma criança uivar. O desespero de sua mãe não conseguiu acalmá-lo e, quando se acalmou, passou quase uma semana sem falar.

Todos os detalhes daquele momento continuavam a cativar os seus sentidos, deixando espaço apenas para as tarefas mais essenciais do cotidiano. Conforme o êxtase se diluía, entreviu a preocupação que causava em sua mãe, e com muita força de vontade pôde domar e dominar o seu espírito. Ao fim de um mês, já aprendera o truque: bastava conduzir a sua atenção ao lugar mais distante possível, tal que todos os detalhes da realidade se revertessem em pequenos pontos à borda de sua percepção. E passou a usar luvas no inverno.

Ainda assim, houve muitos momentos de distração ao longo de sua vida, como quando ficou horas fitando uma única folha seca de outono no asfalto úmido de garoa -- teve que ser resgatado pelos amigos de escola, que então tiveram a certeza de que ele era autista. Essa reputação não o impediu de merecer a atenção de algumas meninas no colégio, mas, ironicamente, nunca sentira algo como amor, ou mesmo vaidade por ser admirado, talvez porque só tivesse coração para admirar.

Tornou-se adulto e permanecia intocado pela vida. Se alguém o conhecesse, diria que ele era um covarde; mas se alguém o entendesse, saberia que ele era somente um egoísta. Entretinha-se em seu mundo de milagres particulares, resignado e até um pouco orgulhoso naquilo que o distinguia dos outros. Não sentia falta de nada, porque tinha o mundo inteiro, mas não entendia que lhe faltava alguém, porque não tinha as pessoas. Assim, deleitava-se indiferente e profundamente com a beleza das mulheres, mas não cobiçava qualquer uma delas. Até que ele a viu.

Havia sido um dia cansativo de trabalho e preocupações muito pequenas. Lácio apoiou as costas no espelho frio enquanto a porta do elevador se fechava, mas não se fechou. Foi reaberta por uma moça bem vestida, que entrou e o cumprimentou com uma voz tão macia e serena quanto um gato dormindo. Haviam restado poucas notas de seu perfume, mas a cor e a textura de sua pele naturalmente bronzeada e resvalada pelos cabelos traziam uma -- "Não", pensou Lácio, "preciso me afastar." Abaixou os olhos.

O ângulo e a posição dos pés da moça delineavam uma identidade sutilmente única, insinuando trejeitos que, mesmo sendo indescritíveis, eram confirmados pela maneira como ela segurava sua bolsa. Qualquer pessoa não veria diferença entre aquela moça e a moça comum, mas décadas de êxtase haviam afiado o seu discernimento. Não havia discernimento suficiente para ela. Ela era singular, e por esse motivo a distância de sua alma e a iluminação plana e desfavorável do elevador não conseguiram diminuir os minúsculos detalhes que semeavam aquela sensação desconhecida em Lácio. Mal pôde se conter até a moça se despedir e descer, porque havia  irreparavelmente se apaixonado por algo que estava muito além da beleza. Prostrou-se sobre o tapete do elevador e chorou murmurando com as lágrimas em suas mãos, despedaçado pela Beleza -- despedaçado por aquilo que só pode existir em pessoas, e não em momentos.

Foi encontrado por outro morador do prédio e conduzido até o zelador, que já se acostumara às excentricidades de Lácio. Ao se recuperar, ele partiu em direção à rua sem dar explicações. Precisava de algo que representasse o que estava sentindo. Um reflexo, uma lasca de reflexo de sua urgência, algo que nem a palavra nem o pensamento alcançavam, mas que somente a existência, pura e simples, poderia traduzir. Avistou uma floricultura e, ainda perturbado pelo que havia dentro de si, paralisou-se quando encontrou na vitrine da loja o que procurava. Quase foi atropelado, porque teve o êxtase em meio à rua, mas recobrou a consciência em tempo de pedir desculpas ao motorista.

Entrou e comprou a flor, retornando com pressa e apreensão. Readentrando o seu prédio, perguntou ao zelador o número do apartamento daquela moça. Tomou o elevador e, posicionando-se em frente à porta dela, tocou a campainha. Naquele instante, notou que havia esquecido de perguntar o seu nome, mas não importava: onde a existência bastava, o nome não lhe serviria de nada. Ela foi a primeira e a última flor de sua vida.

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